Arquivo de janeiro 2008
A notícia da semana: SUN compra MyAB que desenvolve o MySQL o banco de dados livre mais popular do mundo. O preço, 1 bilhão de dólares. A notícia virou destaque em vários lugares no Brasil e no mundo. Eu gosto muito do PostgreSQL, mas tenho que reconhecer o MySQL tem uma legião de usuários que fazem com que ele seja um jogador de peso no mercado. Particularmente na Internet, o MySQL é largamente utilizado. É simples, é rápido, é livre.
A SUN é uma empresa respeitável. Fez um bom negócio. A Oracle tentou comprar a MyAB há alguns anos sem sucesso. E olhe que estou falando da empresa que acabou de comprar a BEA Systems por 8,5 bilhões de dólares. Assim, vemos os grandes comprando os menores e o mercado vai se concentrando em grandes monopólios com suas soluções de “ponta-a-ponta”. Gostaria de lembrar que não tenho nada contra a SUN. Ela é uma das empresas que mais contribuiu com o Software Livre nos últimos tempos, inclusive com o PostgreSQL. Talvez o fato da SUN não possuir um SGDB de peso no mercado tenha feito com que ela invista neste setor.
Uma coisa curiosa que ocorre quando alguém vê a notícia da compra da MyAB é a reação: “Puxa vida, 1 Bilhão por um Software Livre!”. Então me lembro do texto “Os 5 Tipos de Projetos de Software Livre” do Sr. Josh Berkus. A MyAB tem algo em comum com outros projetos de Software Livre:
- America On Line compra a Netscape, desenvolvedora do Firefox;
- Oracle compra SleepCat, desenvolvedora do BerkeleyDB;
- Oracle compra a Innobase, desenvolvedora do InnoDB;
- Novell compra SUSE;
São todos casos em que uma empresa comprou outra empresa que desenvolve um Software Livre. Mas eles são de uma categoria especial de Software Livre, são projetos, segundo o Sr. Josh Berkus, do tipo corporativo, onde o desenvolvimento é dependente da empresa que detém a sua propriedade intelectual. Mesmo adotando licenças livres segundo a FSF OSI ou mesmo pelo Debian, eles costumam manter um controle rígido sobre o desenvolvimento do software. Isto significa que você tem garantido o direito de usar, distribuir e modificar o software, mas pode não ter a oportunidade de contribuir com código para o projeto.
Uma consequência direta sobre isso, é que os “projetos corporativos” de software livre tem preço. O MySQL teve seu preço avaliado em 1 bilhão de dólares. Outras empresas como Red Hat, Canonical, Zend e outras tem seu preço. Mas há projetos importantes que até o momento parecem resistir a essa idéia. O Kernel do Linux não está a venda, o PostgreSQL, o Debian, o Gentoo também não. Assim, vemos que existe um corte importante ao se olhar para projetos de Software Livre. É preciso olhar para como o Software Livre é desenvolvido para saber o que se pode esperar do seu futuro.
Não acredito que a SUN vá trazer malefícios para o MySQL, mesmo porque ele não compete com nenhum outro produto já existente dentro da SUN. Mas este tipo de coisa acontece muito. Em 2000 a IBM comprou o Informix que competia com o DB2 e ele foi sumindo silenciosamente do mercado. Em 92 FoxPro foi comprado pela Microsoft e teve o mesmo destino. Assim, vemos soluções algumas vezes muito boas sumindo para dar espaço por outras com mais fôlego financeiro.
Tags: FLOSS, MySQL, Sun
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Publicado por Telles e arquivado em Geral
Estava eu dando uma olhada nas estatísticas do Savepoint e noto que alguém havia chegado até aqui através de um link no iBest. Qual não foi a minha surpresa ao ver que alguém indicou o Savepoint para o Prêmio iBest! Sim, algum maluco me indicou para a categoria “Blogs - Tecnologia”. Bom, entre os mais votados estão blogs famosos como o BR-Linux e o Meio Bit, mas lá atrás, porém não em último lugar está o Savepoint. Achei interessante conhecer alguns blogs novos, alguns com artigos interessantes. Ainda assim, senti falta de alguns blogs interessantes que eu acompanho, como alguns que estão nos links aqui na barra lateral. Acho que de toda forma vale a pena passar lá para conferir.

Tags: blog
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Publicado por Telles e arquivado em PostgreSQL, Software Livre
O Sr. Fernando França do Desconstruindo me mandou um e-mail falando sobre seu problema com o fornecedor de um ERP que utiliza o PostgreSQL, mas deixou de dar suporte para novas versões. A última versão que ele suporta é a 7.4 lançada há 5 anos. Para o ritmo de desenvolvimento do PostgreSQL isso é muita coisa mesmo. No entanto, o nosso amigo é brasileiro e não desiste nunca… foi atrás do fornecedor que lhe devolveu a clássica resposta: “O PostgreSQL não possui suporte oficial do fornecedor”.
Quando escuto uma coisa destas, respiro fundo e me preparo para uma longa conversa que se segue abaixo. A conversa não é nova, já foi discutida a exaustão em inúmeros lugares, inclusive aqui e esta infelizmente não será a última. Graças a campanhas difamatórias de grandes empresas este assunto vem a tona sempre que alguém deseja se opor a algum tipo de mudança.
Vejamos os argumentos que estão na ponta da língua de quem usa este tipo de argumento:
- Eu preciso ter uma empresa que eu possa processar se houver algum problema grave.
- Se você olhar o kernel do Linux ou do FreeBSD, você verá que não há realmente qualquer garantia por parte do fornecedor de que aquilo irá funcionar adequadamente. O mesmo vale para qualquer software livre que você conheça. No entanto isto não impede que ele seja utilizado em ambientes críticos, por grandes instituições no Brasil e no mundo. Da NASA, forças armadas e grandes bancos, todos confiam em softwares livres para tocar o seu negócio. Qual o problema de se confiar no PostgreSQL?
- Você acredita realmente que alguém fornece um software e realmente garante 100% o seu funcionamento? Olhe as licenças de software dos grandes fornecedores e você verá que todos possuem cláusulas onde especificam claramente que não se responsabilizam pelo mal funcionamento do Software. Você não compra uma garantia, você compra uma marca.
- Você acredita realmente que vai processar a IBM, Oracle ou Microsoft? Já pensou se as pessoas conseguissem processar a Microsoft a cada vez que o Windows apresentasse uma falha crítica que causasse prejuízo para alguém? Porque você acha que todos estes softwares fazem questão de que você concorde com a sua licença de uso antes de utilizar ele?
- Eu preciso de suporte oficial.
- Você precisa de suporte de qualidade. O oficial, fica por conta do fornecedor que tem quer lhe vender o suporte. Ocorre que quando o software não é livre, apenas uma empresa tem o código fonte do software e somente ela sabe realmente como ele funciona. No caso do software livre, você pode escolher a empresa que lhe dará este suporte e pode escolher trocar de empresa se você não gostar dela. Se você não estiver satisfeito com o suporte de um grande fornecedor de uma solução proprietária, você não tem outra opção a não ser pagar mais ou substituir toda a solução.
- Se você não estiver satisfeito com o suporte oferecido pela documentação oficial, IRC ou listas de discussão por e-mail você pode contar com o suporte comercial de várias empresas ou de consultores especializados. Por fim, você pode contar ainda com uma série de serviços de hospedagem com suporte ao PostgreSQL
- Você precisa de atualizações de segurança e correções de bugs. Se você não paga o suporte oficial de um fornecedor de software não livre você fica sem as atualizações do software. No caso dos software livres isto não ocorre. Você nunca vai ficar na mão por não ter pago o suporte num momento de dificuldades financeiras.
- Eu preciso de uma empresa que me forneça suporte 24×7.
- Você tem idéia de quanto custar o suporte 24×7 para uma solução Teradata, Oracle ou DB2? Adicione alguns zeros a direita e você chegará num valor razoável. Quem tem este tipo de suporte paga milhões. Se você quiser suporte 24×7 em algum Software Livre, basta pagar que você o terá.
- Já existem grandes empresas de software que prestam suporte ao PostgreSQL, entre eles a Red Hat e Sun. Eles tem porte suficiente para lhe oferecer um suporte 24×7 nas condições mais agressivas que você possa desejar. É claro que isto não vai lhe sair barato…
- Eu preciso de profissionais certificados.
- Um certificado é um pedaço de papel que uma pessoa recebe após fazer uma prova. Toda pessoa que possui a CNH (Carteira Nacional de Habilitação) tem que fazer uma prova escrita e uma prática. A maioria das certificações se limitam a uma prova escrita. Você acredita que os motoristas brasileiros são bons? E os profissionais certificados, você acredita que um certificado atesta a sua aptidão profissional?
- Se você precisa de profissionais qualificados, há centros de treinamento com excelente qualidade com cursos adhoc, in company e com boas opções de conteúdo.
É claro que muitos fornecedores acabam acreditando nos bilhões de dólares investidos em propaganda e não na palavra de um simples blog. Mas a questão é que muita gente usa o PostgreSQL e outros softwares livres, tem suporte de qualidade e vão muito bem, obrigado. A maioria deles não grita isto aos quatro cantos por aí, mesmo porque, isto pode ser um diferencial competitivo. Mesmo assim sabemos que existem inúmeros casos de sucesso declarados que mostram a maturidade do PostgreSQL em ambientes corporativos.
O curioso neste caso é que a empresa em questão chegou a desenvolver uma versão para o PostgreSQL. Aqui entra um bocado de especulação pela minha parte. Uma especulação plausível, que pode não se aplicar ao caso em questão, mas certamente se aplica a outros casos. O fato é que há uns 5 anos atrás, na época do estouro do Kurumin, o Brasil experimentou uma certa euforia em torno do Linux. Muita gente apostou que o Software Livre seria a solução para cortar drasticamente os custos de TI e sairam implementando algumas soluções por aí de forma caótica. O resultado para quem partiu para este tipo de abordagem foi invariável: falharam miseravelmente. Ocorre que o Software Livre diminui o TCO da sua empresa, mas não a curto prazo. Inicialmente os custos podem até ser mais altos devido às demandas de treinamento, consultoria e migração. É a médio e longo prazo (3 a 5 anos) que o TCO começa a mostrar uma redução significativa.
Muita gente saiu criando versões de seus produtos compatíveis com plataformas livres. A Borland chegou a lançar o Kilix, uma versão do Delphi para Linux. Mas, muitos desistiram no caminho. Alguns voltaram para os braços das plataformas proprietárias. Muitos migraram de forma irresponsável, outros não souberam se adaptar ao ecosistema do Software Livre e alguns receberam propostas indecorosas para frear suas ações em direção ao Software Livre.
O fato é que se você fornece software proprietário para rodar em uma plataforma livre, você vai descobrir um novo tipo de cliente. Um cliente que começa a gostar da idéia de ter independência de fornecedor. Não se trata aqui de guardar um catatau de códigos fontes do fornecedor na gaveta. Trata-se da opção de não ficar amarrado a um fornecedor para o resto da vida.
Este é o tipo de liberdade que muitos fornecedores de software proprietário não gosta. Afinal, se é verdade que o lucro no mercado de software advém de serviços e não de licenças, ter o monopólio na prestação de serviços em algum nicho é um grande negócio. Se você usa Java, você pode escolher o SO que desejar e SGDB de sua preferência para rodar a sua aplicação. No entanto, se você utiliza o Oracle Application Server, que utiliza o Java e o Apache, você só pode utilizar o SGDB Oracle e só a Oracle pode lhe dar suporte. Você vai encontrar fenômeno semelhante se você utilizar o WebSphere da IBM. Imagine agora que você resolve implementar uma solução de um fornecedor de ponta a ponta? Há fornecedores que podem lhe prover servidores, SO, SGDB, Web Server, ERP, BI e o que mais você possa imaginar. Bom, se você fizer isso, é melhor comprar um bom lote de ações desta empresa, pois você estará tão preso que é melhor ser sócio dela.
Conclusão, se você quer que um fornecedor de software proprietário seja homologado numa plataforma livre, você deve ter muita bala na agulha, caso contrário, o fornecedor dificilmente lhe dará ouvidos.
Tags: enterprise, FLOSS, PostgreSQL
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Hoje vi um recorte de jornal falando sobre um grupo de vândalos que faz pichações nos muros das ruas com menções a escândalos políticos. Já não é a primeira vez que eu vejo o uso da palavra Vândalo para se referir a atos de destruição e selvageria. A maioria das pessoas sabem que os Vândalos foi mais um dos chamados “povos bárbaros”. Lendo um pouco mais, descobrimos que eles eram de origem germânica e migraram diversas vezes pela Europa até se instalarem no norte da África ocupando a região de Cartago. Ocorre que eles um dia invadiram Roma e a saquearam por duas semana. A riqueza saqueada por eles tinha como fruto os saques romanos, particularmente a pilhagem romana nos templos de Jerusalém. Resultado, ladrão que rouba ladrão…
Mas a história contada pelos Romanos sobreviveu, e tudo que não era Romano nesta época era considerado Bárbaro. E assim, os Vândalos foram crucificados como o sinônimo de saqueadores inescrupulosos. Bom… os Japoneses chamam os não japoneses de Gaijin, os Texanos (cujo território fazia parte do México) gostam de praticar tiro ao alvo com os Mexicanos, os paulistas e cariocas também vivem tirando sarro um do outro e jogo de futebol entre Brasil e Argentina é sempre um evento a parte. Mesmo assim os Vândalos se deram mal na história enquanto os Romanos são considerados pelo ocidente como o berço da civilização.
Mas os nossos jornalistas são mesmo impagáveis. Ao invés de tratar uma manifestação pública como uma expressão popular (o que era muito comum nas décadas de 60 e 70), tratam eles como lixo humano. É claro que só a imprensa tem o papel de porta voz da verdade. Como ousa um pixador de muros fazer acusações infames pelos muros cidade? Manifestações populares são sinônimo de barbárie. Lembro-me de uns anos atrás quando eu estava trabalhando nas imediações da Av. Paulista e um grupo de professores realizavam uma manifestação na avenida quando se ouviu barulho de tiros. A cavalaria havia passado por cima dos professores sobre ordens do comandante. O mais curioso é que as pessoas no trabalho aprovavam o gesto com entusiasmo e só faltaram aplaudir a polícia. Bom, minha mãe é professora, fez mestrado e tem um currículo que enche fácil mais 50 páginas. Curiosamente, ela ganha menos que eu que tenho uma carga horária menor e trabalho ativamente há apenas 6 anos com informática. Curiosamente estas pessoas que refutam as manifestações populares são as mesmas que pregam que a população é mal escolarizada. Curioso, não?
Não vou aqui enaltecer a memória dos Vândalos nem os pichadores, mas a cada dia que se passa leio menos jornal e acompanho mais os canais de mídia independente. Pelo menos eles não se auto-intitulam como porta-vozes da verdade.
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Fim de ano é sempre bacana, mas cansa. Depois de 5 anos eu finalmente consegui tirar uma semana de descanso entre o natal e o ano novo. Imperou a lei do mínimo esforço. Nada de passar o ano novo na praia e pegar aquele trânsito infernal, nada de filas colossais, etc e tal. Foi bom, mas tem algo que dá muito trabalho nesta época. Por uma convenção coletiva, pessoas que você nunca viu na vida ou que nunca lhe dirigiram um único sorriso sincero resolvem lhe desejar um monte de coisas. Nada contra. Acho que os laços de fraternidade são sempre positivos e devem ser incentivados. Na verdade, verdade mesmo, acho que a gente passa muito tempo desejando e pouco tempo realizando. Afinal, intensão nesta terra não vale muita coisa, nem mesmo por escrito. Mais que isso, existe aquela coisa compulsória de que um dia específico tem que ser o mais importante do ano. Meu pai já me dizia que a pior coisa que se possa desejar para uma noiva é que o dia do seu casamento seja o mais feliz da sua vida. Isto significa que todos os outros dias depois serão sempre piores!
Não, isto não significa que eu odeie as festas de fim de ano. Muito pelo contrário, eu sempre adorei, com raras exceções. Veja, tenho lembranças de natais excelentes com a família quando eu era garoto. Passei o ano novo com amigos em viagens inesquecíveis na adolescência. Hoje me divirto com meus filhos, monto os brinquedos deles, solto rojão, etc. Mas calma lá. Primeiro há quem não comemore o natal. É verdade, o cristianismo não é a única opção existente na prateleira das religiões. Os judeus comemoraram Hanucá, os muçulmanos o Eid ul-Fitr, os discordianos comemoram o Dia de St. Tib e por aí vai. E não são só os feriados religiosos que não batem… imagine que 1/4 da população do mundo vai comemorar o ano novo em 7 de fevereiro, detalhe, a entrada do ano 4705. Sim, estou falando do ano novo chines.
Não é só o comércio que adora datas comemorativas como dias dos pais, das crianças, dos avós etc e tal. Existe um fetiche com datas: data de aniversário, data do primeiro beijo, do casamento, do batismo. Há os mais entusiastas que lembram do dia em que andaram pela primeira vez de bicicleta, conseguiu o primeiro emprego, tomou o primeiro porre, bateu pela primeira vez o carro e por aí vai. Prefiro ainda as pessoas que esquecem a data do próprio aniversário mas não se esquecem de lhe convidar para tomar uma cerveja na sexta-feira!
Calendários são coisas realmente curiosas. Não apenas o Calendário Chines, que foi reformado dezenas de vezes. No Calendário Hebreu, o ano um, que é o ano da criação, começou em 3761 AC. Assim, para eles, estamos no ano de 5769 e não havia mundo antes disso. Pelo Calendário Islâmico estamos no ano 1428, o marco zero é a migração de Maomé de Meca para Medina. Um detalhe, o ano deles possui apenas 354 dias (12 ciclos lunares) e não 365 dias. Na Terra Média, a 4ª Era se inicia com a destruição do Um Anel por Frodo. Aparentemente os calendários surgem em situações não tão diferentes das propostas por Tolkien.
Os limites epocais são geralmente definidos por grandes momentos históricos, como o início de um novo regime político ou uma revelação divina. E vira e mexe tem alguém querendo mexer nos calendários. Ocorre que o calendário mais usado no mundo é o Gregoriano, que tem como limite epocal o nascimento de Cristo que, convenhamos, ninguém sabe bem ao certo quando e onde foi. O primeiro dia do ano também variou em muitos lugares, geralmente se adequando a feriados religiosos ou políticos. Os romanos que passaram a comemorar o ano novo no 1º de Janeiro também mudaram de data várias vezes. Veja que o tamanho do ano é algo que também variou muito até Júlio César colocar ordem na casa (e criar um mês com o seu nome).
O problema é que Deus fez o mundo com muita pressa e criou uma confusão para os astrônomos. Se Deus fosse mais cuidadoso, estudaria um pouco mais de matemática e facilitaria um pouco mais a nossa vida. Veja você que o calendário solar e lunar não batem nunca. Uma lunação sempre tem 28 dias. Mas o ano não tem um número exato de lunações. Um mês não corresponde a uma lunação. Um mês sequer tem um número fixo de dias. Assim os dias da semana que são regidos pelo calendário lunar, nunca batem com os meses que são divididos pelo calendário solar. Mas a coisa não para por aí. Nem mesmo um ano compreende um número exato de dias, são 365,2425 dias por ano. Aí toda a nossa vida fica complicada com anos bissextos e outras traquinagens. Para complicar mais… o tamanho dos dias não é composto por exatamente 24 horas de 60 minutos com sessenta segundos cada. Sobram 0,002 segundos por dia! Isto representa 0,7 segundos por ano. Mais ajustes nos relógios são feitos a cada 18 meses. Isso é uma verdadeira maldição. Os sysadmins e economistas se autoflagelam todo dia pedindo a Deus que isso mude um dia.
Bom, no caso dos segundos, a culpa é nossa mesmo, afinal, nós não criamos os períodos de movimentação da terra e da lua, mas nós inventamos o segundo. Alias, nós o reinventamos várias vezes. Um segundo, hoje, equivale a 9.192.631.770 períodos da radiação característica do Césio 133. Um detalhe bizarro é que em 1997 fizeram uma pequena alteração na definição, restringindo o teste a um único átomo de Césio na temperatura de zero Kelvin. Isto significa que o segundo é uma unidade de tempo que ninguém jamais mediu segundo a sua própria definição.
Mas bizarro mesmo é a definição das datas comemorativas mais antigas como a Páscoa. A data da Páscoa foi motivo de muito debate em 365 DC, no famoso Concílio de Nicéia. Para começar a conversa, o Calendário Hebreu era lunar e calcular a data exata da morte de Cristo não era tão simples assim. Em segundo, na época haviam outros feriados que poderiam coincidir. É claro que um concílio com gente de tudo quanto é lugar ia dar problema, pois cada um tem seus próprios feriados. Isso é tão fácil como querer agendar uma reunião de diretores sem a presença do presidente. Bom, o fato é que até hoje tem gente que comemora a Páscoa em outra data. O conselho falhou miseravelmente. Resultado, o feriado, bem como uma série de outras questões religiosas dependem de escolhas humanas e não divinas. Não imagine um feriado específico comemora um número inteiro de vezes que a terra girou em torno do sol a partir de uma data histórica. A chance de comemorarmos com alguma precisão um evento que ocorreu há mais de 2 mil anos é muuuito remota. Sorte dos historiadores que vão ter emprego para o resto da vida.
Para os ocidentais cristãos e principalmente para os brasileiros, a Páscoa é o segundo feriado mais importante do ano. Afinal ela regula a data de uma série de outros feriados incluindo o mais importante deles: o carnaval. Todo brasileiro sabe que o ano só começa depois que as pessoas se curam da ressaca do carnaval (com a notória exceção da Bahia onde os cientistas ainda não chegaram a um consenso se o ano chega a começar algum dia). Assim sendo, o dia 1º não tem nenhum significado civil para nós. Alguém inventou o dia da confraternização universal, mas para nós é mais uma desculpa para bebemorar. De qualquer forma confraternização para valer ocorre no carnaval. Ponto final.
Para quem mora em cidades grandes como São Paulo, os feriados são uma verdadeira praga. Apesar disso, quem trabalha com TI pode não se importar tanto. Não existe melhor data para migrar um banco de dados em produção do que um bom feriado prolongado. Por outro lado, quem trabalha como PJ e ganha por hora sabe que feriado é sinônimo de prejuízo no bolso. Enquanto os outros aproveitam para lotar as estradas e cinemas, você apenas vê seu salário sumir. Por mim, até os finais de semana deveriam ser intercalados. Esse negócio de todo mundo folgar no domingo é uma encrenca. Se eu pudesse escolher, jamais tiraria folga num domingo. O planeta tem gente demais para todos quererem folgar no mesmo dia.
Ao fim e ao cabo, a questão é que o fim de ano é um exagero. Um grande exagero. Não tem fundamento religioso ou científico. É uma convenção coletiva e ponto. Graças aos filtros anti spam eu já nem vejo aquelas centenas de e-mails com anexos com slides coloridos com música da Simone ao fundo. Cartões Virtuais executáveis não rodam nativamente no Linux, o que significa que aquela enxurrada de vírus que chegam no fim do ano também não chega aqui. Mas fica a obrigação de cumprimentar e ser cumprimentado por todo mundo.
Vou lhe dizer, isto dá mais trabalho do que se imagina. Cada um vem com uma receita mais comprida que o outro. Há quem decore um discurso inteiro para cumprimentar as pessoas. Todos só querem o bem dos demais, mas expressar tudo isso é muito demorado. Deveriam inventar alguma expressão idiomática para encurtar a história toda. Eu desejo a todos um “Kit Felicidade” com tudo que você quiser dentro. Você quer saúde? Tem primeiros socorros e plano de saúde 5 estrelas no kit. Tem até receita para emagrecer sem dieta! Você quer prosperidade? Tem Tele Sena premiada para toda família no kit. Você vai inclusive aparecer no Sílvio Santos! Paz? Tem tropas da ONU garantindo a paz mundial no kit; junto com cerveja, terapeuta ou incenso, dependendo da sua convicção. Enfim, se eu esbarrei ou não com você no fim do ano e não cumprimentei ou escutei você adequadamente, então não se incomode. Desejo um kit felicidades cosmopolita e ecumênico para você. Não só hoje ou no ano novo, mas todos os dias. São os mais sinceros votos que eu tive a competência de escrever. Mas veja, ninguém pode dizer que meus votos não são realmente sinceros, e isso deve valer alguma coisa. Quase tanto quanto a sua paciência de ler até aqui.
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