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4 de Dezembro, chego em casa umas 23 horas e vejo o e-mail na lista pgsql-announce: “Lançada a versão Beta4 do PostgreSQL”. Hum… isto significa que o 8.3 não vai sair até o PgCon Brasil. É uma pena… e motivo de orgulho ao mesmo tempo. É uma pena que a festa não vai ser completa durante o evento. É um motivo de orgulho pelo simples fato de não haver data para o lançamento oficial. É isso mesmo. Isto é uma das maiores vantagens dos softwares realmente livres. Já ouviram falar na piada de que o Windows seria o maior programa Beta da história? Bom… isso não ocorre só com o Windows. Acontece com quase toda empresa cuja receita provém da venda de caixinhas. Se você lançar um versão excelente e estável, você venderá suas caixinhas. Mas você precisa vender o mesmo produto para seus clientes daqui a um ou dois anos. Resultado: existe uma pressão dos acionistas para que a versão saia logo, custe o que custar. E o custo costuma significar estabilidade.

Os projetos de Software Livre mantidos por comunidades não sofrem este tipo de pressão. O Debian chegou a demorar alguns anos para lançar o Sarge enquanto as outras distibuições Linux eram lançadas a cada ano ou mesmo a cada 6 meses. Mas se você procura por uma distribuição realmente estável… o Debian é uma excelente escolha. Quando falamos de Bancos de Dados, a estabilidade é motivo de paranóia constante. É absolutamente normal uma nova versão de um SGDB demorar 3 ou 4 anos para ser lançado. O PostgreSQL tem liberado praticamente um release por ano. Isto pode assustar alguns DBAs que não estão acostumados com o ritmo de desenvolvimento de uma comunidade ativa. A comunidade de desenvolvedores do PostgreSQL tem se mostrado bastante ágil no desenvolvimento de novas funcionalidades e na correção de erros. O importante, é não ceder a pressões para lançar um produto imaturo no mercado. Ao olharmos a história das versões de vários produtos conhecidos de mercados, encontramos vários lançamentos de valor questionável como o o MS-DOS 6 ou o impagável Windows Milenium Edition, para citar casos mais clássicos. O Corel Draw perdeu muito da sua credibilidade entre os designers para a Adobe, devido a uma política de lançamento de versões agressiva no final da década de 90. A própria IBM teve a versão 6 do DB2 que não foi bem recebida pelo mercado.

Software Livre também não está livre destes problemas. Assim, Red Hat, SUSE, Mandriva, Canonical e outras distribuições mantidas por empresas sofrem uma pressão para lançar rápido novas versões. Assim como em distribuições Linux, temos o mesmo ocorrendo com outros tipos de Software Livre. Assim, entre os SGDBs o PostgreSQL ganha mais um ponto por ser mantido por uma comunidade realmente fantástica. Pode ser que demore muito até o dia em que os DBAs reconheçam isto como um ponto positivo. Em todo caso, só o tempo irá dizer se isto realmente fará a diferença.

Então, se alguém lhe perguntar quando sairá a nova versão do PostgreSQL (ou outro Software Livre mantido por uma comunidade), não tenha dúvida e responda:

- Quando estiver pronto!

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A partir do lançamento do Sarge eu passei a utilizar definitivamente a versão Stable do Debian no meu Desktop no trabalho. A posição era bastante conservadora, mas ambiente de produção é ambiente de produção. Não dava para ficar perdendo muito tempo com dependências quebradas e coisas do tipo. Na verdade isso também refletiu a minha insegurança com o Debian também…

Aí aconteceu. Foi só instalar o FreeNX e o Cliente do Oracle 9i quebrou. Falhei miseravelmente. Então pensei… vamos instalar o Cliente do Oracle 10g…

Bem então vou passar para Testing logo de uma vez. Atualizei o /etc/apt/source.lists e pimba… o meu sistema quebrou feito paçoca. Acontece que além do Oracle, ainda houveram algumas brincadeiras com o TORA e um maluco que usou meu desktop como VPN… resultado, falhei miseravelmente novamente.

Bem, formatei a intalação do meu Debian, instalei só sistema básico do Sarge, atualizei o source.list com entradas para stable, testing e unstable. Depois de um aptitude update, um aptitude upgrade e finalmente uns dois aptitude dist-upgrades o sistema básico estava atualizado com kernel novo e tudo o mais. É claro que de cara eu fiz algumas besteiras, mas quando fui fazer a mesma coisa na minha máquina de casa, parece que o resultado foi semelhante.

Depois eu instalei o ambiente gráfico e tudo funcionou muito bem. O meu único cuidado adicional foi o de não montar o /home (que eu tinha guardado num partição separada, claro!) e sim ir importando os arquivos de uma conta para outra manualmente. Fiz isso pois achei que o profile da versão anterior do ambiente gráfico com seus trocentos arquivos de configuração poderiam quebrar. Como eu não estava afim de arristar nenhum byte de um ano de trabalho direto no mesmo ambiente, fui importando pasta por pasta que me interessava e copiando algumas configurações especificas.

Bem, parece que agora está tudo funcionando em casa e no trabalho com 100% Unstable. Comparando com o Ubuntu 5.10, não vi nada que justificasse sua utilização em detrimento do Sarge. Claro que dá um pouco mais de trabalho para chegar lá e sempre corro o risco de uma coisa ou outra quebrar… mas até segunda órdem estou fechando com o Debian Unstable!!!

Agora a nova aventura fica por parte do Oracle 10g e compilar o TORA…

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Artigo publicado originalmente no DebianZine nº1

1. Sociedade de Competição

Quando Charles Darwin publicou em 1859 “A Origem das Espécies” consolidou-se a idéia da “Seleção Natural”[1]. Além do impacto conhecido em toda a biologia, a idéia de que a competição é o caminho natural da evolução foi incorporada pela sociedade moderna. A partir de então, a lei do mais forte tornou-se algo natural. Afinal, os bons, os que evoluem, são os que conseguem sobreviver em uma sociedade altamente competitiva. Aprendemos a competir nos esportes, competir por uma vaga na faculdade, um emprego, uma promoção, um lugar melhor ao sol.

2. Globalização

Quando a Tecnologia de Informação e Comunicação dá seu salto tecnológico com o rádio, satélites, fibra ótica e finalmente a World Wide Web, a competição se acirra e novas formas de negócio surgem. Surgem novas formas de “utilizar os recursos econômicos escassos”: mão-de-obra, tecnologia, matéria-prima e consumidores. Segundo Milton Santos[2], a competição no mundo globalizado foi marcada pela presença do capital financeiro: fusões de grandes empresas aumento do capital especulativo e desemprego.

3. GNU e colaboração

Na contra-mão da história surge, em 1984, o manifesto GNU[3]. Uma década depois, as primeiras distros começam a se erguer e a “Seleção Natural” é finalmente colocada em cheque. O importante para os adeptos do Software Livre não é apenas a qualidade ou o preço. Uma nova qualidade é colocada na mesa. O paradigma colocado é o da colaboração em oposição à competição. Bom é aquele que é criado de forma colaborativa.

4. Conhecimento livre

O Software Livre não precisa ser o melhor, embora ele seja em diversas áreas. Todos sabem que existem diversas lacunas a serem preenchidas. Mesmo assim, ele começa a substituir soluções tecnicamente superiores criadas no modelo de competição. Surge uma comunidade que descobre o prazer em ajudar ao invés de competir, jogar frescobol ao invés de tênis[4]. Então o Software Livre começa a criar um movimento que questiona muito mais que licenças e patentes de software. O surgimento de novas formas de licenciamento como a Creative Commons[5] criam aliados na música, na literatura e em diversos frutos do que começa a ser chamado de “Conhecimento Livre”[6].

5. Debian e GNU

No entanto, desde 1984 muita coisa aconteceu. Dentre os grupos que deram continuidade aos ideais GNU, o projeto Debian[7] é certamente um dos mais importantes. Ao produzir o sistema Debian, gastaram muitos neurônios discutindo como criar uma distro que fosse algo mais que uma distro excelente tecnicamente. Portanto, o usuário do Debian que não leu, deveria investir alguns minutos para ler seu Contrato Social[8].

6. As táticas do software proprietário

No entanto em meio ao duelo em competição e colaboração, parece que há um oceano inteiro para explorar. Mesmo o Mozilla atingindo o triplo de usuários em todo o mundo, eles ainda não significam 10% dos navegadores utilizados. A discussão sobre patentes e licenças está mais quente que nunca. Neste momento é sempre bom abrir os olhos. Uma preocupação clássica são as campanhas de FUD[9], mas quando uma empresa defensora do software proprietário começa a fazer pequenas concessões ao Software Livre, devemos nos policiar quanto a táticas muito mais perigosas, como o “Embrace and Extend”[10]. Aí, pior que os softwares proprietários são os padrões proprietários. Digo isto só para alertar que falar em Código Aberto e Software Livre não são a mesma coisa e partidários desta ou daquela corrente possuem grupos maiores por trás que assimilam ou rejeitam estas e outras terminologias descendentes.

7. Debian e Colaboração

É neste momento que o Debian me cativa. Primeiro por ser uma distro não comercial. Depois por ter projetos direcionados para usuários finais, o BR-CDD[11], e para o setor educacional, o Skolelinux[12]. No entanto, acho que o fundamental, para mim, é o modelo de desenvolvimento e a forma de agregar novos colaboradores. O projeto Debian é um projeto que agrega toda e qualquer pessoa disposta a colaborar[13], tem regras claras para seus desenvolvedores[14] e uma forma democrática de tomar suas decisões. Neste sentido, o êxito do Debian não pode ser avaliado somente pelo seu êxito técnico, mas pelo seu êxito em agregar novos colaboradores.

8. Educação e difusão

Então, ao utilizar o GNU/Linux, não fiz a opção apenas por uma ferramenta, fiz a opção por uma filosofia, e depois descobri que optei por uma comunidade. Quem assina a lista debian-user-portuguese[15] sabe que Software Livre é muito mais que troca de código-fonte, é troca de conhecimento. Nesse ponto, vejo todo o sentido em se discutir qual modelo de educação possui mais afinidade com o Software Livre. As pessoas que criam o Software Livre são, em primeira instância, aqueles que difundem seu uso. O fato é que, muitas vezes, encontro excelentes programadores com dificuldade em se comunicar com outras pessoas que não sejam também programadores. É óbvio que toda pessoa que utiliza computadores conhece as 7 camadas OSI e o que é uma consulta SQL, assim como seria um absurdo não saber a diferença entre uma linguagem compilada ou interpretada. Neste sentido, temos uma dura realidade pela frente. A maioria dos nossos hackers aprendeu informática passando incontáveis horas em frente a um monitor, lendo livros e documentações, navegando na Internet e trocando figurinhas com outros hackers. Vocês conhecem algum curso de informática que trabalhe de forma parecida?

9. Educação e Conhecimento Livre

O fato é que, quando pensamos em ensinar, muitas vezes, nos reportamos à forma como aprendemos em nossas escolas. São as mesmas que nos ensinaram a vida toda: a competir, repetir e copiar. Agora, queremos que as pessoas colaborem, critiquem e criem. Não podemos mais depender de receitas de bolo para conseguir executar a maioria de nossas tarefas com sucesso. É preciso aprender, apreender e aprender a aprender! Não basta conhecer todas as combinações de atalhos do VI, EMACS ou OpenOffice.org, é preciso entender como os processadores de texto funcionam. Não basta conhecer a sintaxe do C, Perl ou PHP, é preciso conhecer algoritmos e lógica de programação. Se não mudarmos a forma como ensinamos as pessoas a interagirem com o software, as pessoas migrarão sem se importar se ele é livre, aberto, proprietário, comercial ou seja lá o que for. O Software Livre abre, finalmente, a caixa preta. Não seria bom se as pessoas começassem a se questionar como ele funciona, como ele é feito?

10. Outro barbudo: “Paulo Freire”

Foi assim que descobri que o Debian tem afinidades com outro barbudo. Em 1996, Paulo Freire escreveu seu último livro antes de morrer. É um pequeno how-to para educadores. Chama-se “Pedagogia da Autonomia, Saberes necessários à prática educativa”[16]. Aqui, Paulo Freire mostra claramente a diferença entre treinar e educar. Não se trata de depositar toneladas de conhecimentos sobre o cérebro alheio. Trata-se de interagir com o conhecimento, desconstruí-lo e reconstruí-lo à sua maneira. A tarefa do educador não é a de revelar os segredos e mostrar o caminho da verdade e sim permitir que os outros descubram por si o caminho das pedras, inclusive construindo novos caminhos.

Em certos aspectos, a “Pedagogia da Autonomia” lembra muito o Contrato Social do Debian, fala que é necessário rejeitar qualquer forma de discriminação, ter rigorosidade metódica, consciência do inacabamento, etc. Se queremos que o Software Livre perdure, devemos fazer as pessoas acreditem no seu modelo de desenvolvimento, na sua importância e em suas vantagens para a sociedade. Para isso, não basta mais treinar usuários, programadores, administradores de rede etc. Como diz Paulo Freire é preciso compreender que a educação é uma forma de intervenção no mundo.

11. Conclusão

Para aqueles que realmente acreditam na importância do Software Livre ou até no conhecimento livre, é imprescindível que mudemos nossa postura com os demais. Não se trata de uma cruzada contra esta ou aquela empresa de software proprietário, trata-se de acreditar numa nova forma de utilizar o conhecimento que nos foi transmitido de geração em geração por toda a existência da humanidade. O fato é que devemos olhar além do teclado e mouse. Colaborar, não é apenas codificar, é também ajudar e ensinar o próximo. Se não tomarmos alguns cuidados, poderemos ser engolidos por uma forma disfarçada de software proprietário num futuro próximo.

12. Referências

[1]http://pt.wikipedia.org/wiki/Charles_Darwin

[2]http://www.fundaj.gov.br/observanordeste/ obex02.html

[3] http://www.gnu.org/gnu/manifesto.pt.html

[4] http://www.rubemalves.com.br/tenisfrescobol. htm

[5] http://creativecommons.org

[6] http://www.marketinghacker.com.br

[7] http://www.debian.org

[8] http://www.debian.org/social_contract

[9] http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/ artigos. asp?cod= 274ENO001

[10] http://www.gnu.org/philosophy/gpl-american-way.html

[11] http://cdd.debianbrasil.org/

[12] http://www.skolelinux.org/pt_BR/index_html

[13] http://www.debian.org/devel/join/

[14] http://www.debian.org/devel/join/newmaint

[15] http://lists.debian.org/debian-user-portuguese

[16] http://www.pazeterra.com.br/

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