Posts Tagged “ETELG”

O Jack me convidou para escrever sobre este meme (que é uma expressão que subverte o significado original da palavra para disfarçar o que na verdade não passa de uma corrente entre blogs). Após alguns bons dias sem postar nada, acordei de ressaca de um pileque moderado - mas merecido e até necessário - com inspiração para escrever sobre o assunto.

ALERTA: Este é um texto longo e pessoal. Se você não conhece o autor deste blog , não está com a menor intenção de conhecer ou não tem a menor paciência de ler filosofia barata de pós botequim, não leia e não comente. Você está avisado.

  • Leia antes de escrever!

A primeira coisa que aprendi sobre blogs, é que para ser um blogueiro você deve ler outros blogs. Se você espera que alguém leia o que você escreve, então é de se esperar que você leia o que outras pessoas escrevem. É também parte de uma tradição onde os bons escritores devem ler mais do que escrever. Por tabela tem aquele ditado de que o ser humano tem uma boca de duas orelhas, para ouvir mais e falar menos. Confesso que eu muitas vezes falo mais do que escuto. Mas vivo procurando outros blogs que falem sobre bancos de dados também. E vou lhe dizer, os DBAs não gostam muito de escrever. Quando encontro algum em pt_BR é uma vitória. Já cheguei até a escrever aqui e aqui só para comemorar quando encontrei algo novo.

  • Egocentrismo e Jornalismo

A segunda coisa que todos que acompanham a “blogosfera” já sabem é que o povo adora falar sobre blogs. Muitas vezes isso realmente torra a paciência de qualquer um. Picuinhas via blogs atacando o que fulano escreveu sobre beltrano e por aí vai. Ou então a apologia dos blogs e a mídia formal, etc e tal. Como não sou jornalista, esse assunto costuma me entediar.

Na verdade eu já tive muita vontade de fazer jornalismo. Participei pela primeira vez de um jornal na escola fazendo jornal mural na 3ª série do ensino fundamental e nunca mais parei. Fui diretor de imprensa do grêmio da escola técnica que cursei e escrevia editoriais para o jornal “estopim” que criamos. Mas eu já tenho uma irmã jornalista (espero que ela não leia isso), trabalhei com jornalistas, e tive um caso ou outro com jornalistas também. Vou lhe dizer uma coisa, eu acredito no poder dos editores, nos baixos salários dos jornalistas e na força das assessorias de imprensa - que são as pessoas que mais escrevem artigos para divulgar os produtos ou idéias dos seus clientes e curiosamente nunca vêem o seu nome nos artigos publicados.

Descobri também que em geral os melhores artigos publicados não são de jornalistas. São de pessoas de outros ramos que tem alguma coisa a dizer sobre um assunto específico. Então desisti do jornalismo e fui cursar Ciências Sociais. Falem bem ou mal, mas eles escrevem artigos bem mais interessantes - ok, muitas vezes mais chatos e metidos também! O fato é que o jornalista é uma pessoa que parece (digo parece, porquê eu nunca cursei jornalismo) criada para falar sobre qualquer assunto, o que é no mínimo perigoso. Lembro que na USP o curso de jornalismo da ECA possuía uma carga horária enorme de cursos que eles poderiam fazer em qualquer outra faculdade. É claro que nas Ciências Sociais nós também tínhamos este privilégio. Então eu fui fazer “Teoria de Bancos de Dados” na IME e também uma matéria na ECA que não me lembro bem qual o nome.

Mas lembro que o professor contava muitas histórias interessantes, particularmente sobre como os editores dos jornais se comunicam para adulterar notícias em vários meios fazendo uma mentira se transformar em verdade oficial. É claro que se o Cardoso tivesse um caso concreto desse na mão ele faria a festa contra o Estadão e suas Monkey News. Bom, talvez ele tenha mas prefira não baixar tanto o nível. Mas se vocês duvidam de como isto pode funcionar, veja as brincadeiras do Mr. Manson, que por mais que tenha ficado sem pique de escrever, foi um gênio ao criar o dia do caos. De qualquer forma, um profissional de qualquer área que não consiga fazer auto crítica está fadado a mediocridade. Mas o professor da ECA também indicou um livro de um Italiano chamado Vito Giannotti. E quando olhei o livro, vi que eu tinha ele na minha prateleira, e na verdade o próprio autor tinha me dado o livro de presente. Confesso que não li o livro, mas depois de conhecer um jornalista desbocado de sandálias que fala o que pensa e põe a cara para bater, fui obrigado a perdoar todos os jornalistas medíocres que eu já conheci, e olha que não são poucos. De qualquer forma, com raras exceções como o Contraditorium, a maioria dos blogs que fica no “flap flap flap” sobre blogs, é muito chato. Mas cá estou eu escrevendo sobre blogs…

  • Diário de bordo

Confesso que quando criei este blog, ele tinha uma viés de sociologuês no começo. Eu estava na minha fase de deslumbramento sobre o Software Livre e fiz um pouco de apologia sobre o assunto. Não tão bem quanto outro eminente sociólogo (que cursou a mesma faculdade) o Sr. Sérgio Amadeu, mas escrevi algumas coisas aqui e acolá. Em alguns eu me soltei mais e escrevi coisas mais extravagantes como em “Café Cerveja e Software Livre!” e em “Software Livre e o Último Samurai“. Também fiz a primeira tradução de um artigo do Sr. Josh Berkus chamado “Os Cinco Tipos de Projeto de Código Aberto“. Cheguei a ganhar um comentário do autor. Aí me empolguei e traduzi outras coisas, mais técnicas, depois entrevistei ele e outros desenvolvedores do PostgreSQL e finalmente tomei uma cerveja com ele antes do FISL deste ano. Curiosamente o meu lado jornalista me fez ajudar a criar o DebianZine que foi uma idéia do Fike de criar um fanzine sobre o Debian que infilismente só chegou a ter 4 edições. O fato é que nos meus únicos dois artigos no DebianZine, nenhum deles era técnico.

Passei muito tempo aqui no blog postando sobre o PSL-ABCD. Na verdade, um dos primeiros posts deste blog foi a “Carta de Santo André” que ajudei a escrever, mas infelizmente não estive presente quando ela foi lida e o PSL-ABCD foi criado. Ajudei a organizar 3 fóruns e outros eventos do PSL-ABCD. Um belo dia eu estava no canal do Debian-BR no IRC e o Faw estava comentando sobre um post que escrevi sobre algumas desventuras como DBA e outra pessoa comentou no canal: “Outro post filosófico sobre como não precisamos precisamos de programadores de sim de liberdade?”. E o Faw educadamente respondeu: “Não, este é técnico”. Aí eu percebi que estava na hora de escrever mais coisas técnicas, e admitir que existe um fundo de verdade na expressão “Show me the code”. Para meu azar, eu continuei encontrando bancos de dados com VARCHAR na chave primária…

Aos poucos eu comecei a me afastar do PSL-ABCD e resolvi estudar mais e publicar coisas mais técnicas. Foi nesta época que surgiu o nome atual do Blog: “SAVEPOINT” que era uma alusão ao lançamento da versão 8.0 do PostgreSQL que implementou esta funcionalidade (que eu nunca usei até hoje) mas que parecia um nome bacana para o blog. Com o tempo o “Telles” sumiu do nome do blog e ficou só o SAVEPOINT. Isto também coincidiu com uma alavancada profissional e renderam algumas palestras por aí. Este ano eu também me envolvi mais com a comunidade de PostgreSQL e passei a ajudar na organização do PgConBrasil. Mas não estou colaborando na mesma intensidade como outrora, o que me deixa mais tempo para estudar. Curiosamente este ano eu passei a estudar mais sobre Oracle apesar de realmente simpatizar mais com o PostgreSQL, o que me levou a dar satisfações públicas sobre o assunto aqui.

Bom, olhando bem, um blog pode servir como um diário público, como eu acabo de demonstrar. Também serve para ajudar algumas pessoas com postagens técnicas com alguma relevância. Quando olho para as palavras chaves que as pessoas usam nos mecanismos de busca isto fica bastante claro. Eu particularmente já fui muito ajudado por outros blogs e por isso eu posso dizer que eu realmente gosto deles. Não sei se este blog ajudou alguém a resolver algum problema, mas o fato é que algumas pessoas continuam acompanhando o que escrevo aqui. O meu entusiasmo com os blogs me levou a criar a campanha “Keep Bloging” junto com o Jack para que outras pessoas criassem um blog. De certa forma a campanha continua e o último blog que eu influenciei foi o da Kenia, que está reforçando o tímido grupo de pessoas que escrevem sobre bancos de dados em pt_BR.

  • Autopromoção

Dizem aí que o reconhecimento do sucesso de um blog está nos seus comentários. De certa forma eu concordo com isso e cheguei a adotar o WordPress especificamente por causa de algumas deficiências no mecanismo de comentários do Xoops. Este blog, na verdade continua recebendo poucos comentários, mesmo depois da migração. Uma forma de ganhar comentários é certamente ser polêmico ou escrever coisas engraçadas. Quando escrevi dois posts comparando o Oracle com o PostgreSQL eu tive os melhores comentários deste blog aqui e aqui. Este foi um dos assuntos mais gratificantes em termos de retorno, pois os comentários complementaram o que escrevi tornando o texto mais rico. É claro que aparecer no BR-Linux ajudou muito, mas a lista de discussão do PostgreSQL ajudou mais ainda. Não é a primeira vez que eu ou outra pessoa divulga um post deste blog e nem assim eu tive um retorno tão grande. Afinal este assunto rendeu uma das conversas mais longas da lista com mais de 100 e-mails, onde eu fui apenas mais um palpitando sobre o assunto.

Falando em BR-Linux, uma das coisas difíceis de se aprender é até quando você se permite “promover” o seu blog. Existe uma linha tênue entre o que você pode considerar ético ou não. No começo eu era muito purista. Até que o Fike divulgou um post meu no BR-Linux… e aí este blog começou a receber visitas para valer. Até hoje as “10 Dicas para começar a usar o PostgreSQL” é o texto mais lido neste site. No final aprendi a não recriminar ninguém. A questão ao fim é perceber qual tipo de leitor você quer atrair para o seu blog. De vez em quando eu divulgo uma postagem minha na lista do PostgreSQL-BR. Algumas pessoas dão algumas dicas, corrigem alguns erros (de ortografia inclusive) e discordam também. Se não tenho muitos comentários no blog, na lista isso acontece com mais freqüência. Não divulgo qualquer coisa, só coisas que acredito que possam agregar algum valor a discussão da lista.

Antes que alguém pergunte (tem alguém lendo isso?) sobre monetização, eu respondo que tive preguiça de ir atrás. Na verdade não tenho tantos leitores assim, e acho que não conseguiria ganhar quase nada com isso (mas seria bom ajudar mais o Fike a pagar o provedor). Não tenho nada contra a monetização, só acho que isto não chega a ser uma fábrica de dinheiro. Quando a propaganda ocupa muito espaço no site, isto me irrita um pouco, pois desvia a minha atenção do texto que eu quero ler. Mas muitos conseguem ser mais discretos e não atrapalhar o leitor. De toda forma, a maioria dos blogs que eu leio eu acompanho via RSS que ainda não vem com muita propaganda, para a minha felicidade momentânea. A questão é que isso dá trabalho e na verdade hoje eu prefiro investir o meu tempo escrevendo mais. O site poderia estar mais arrumado também (aceito sugestões), mas acredito que a melhor forma de promover este blog é escrever.

  • Perfil dos leitores

Acompanhar o Google Analytics é realmente interessante. Se você quer realmente atrair muitos leitores, com uma ferramenta destas você vai longe. O final-de-semana é uma época de poucos leitores aqui no SAVEPOINT. Curiosamente é uma época onde os posts não técnicos ganham o maior número de leitores. A Receita de Chili Con Carne, é um bom exemplo, mas as palavras mais procuradas neste blog vem do post “Frases Interessantes“. O fato é que um blog técnico com um foco restrito não terá nunca o mesmo número de leitores de um site genérico. Por outro lado é besteira achar que escrevemos e queremos ficar anônimos. Todo mundo gosta de receber muitas visitas e se não gostassem não montariam um blog. Mas acho que com o tempo comecei de alguma forma a ter leitores mais assíduos que não aparecem aqui apenas caindo de paraquedas através do Google. Para quem quer ganhar dinheiro com monetização, isto pode não ser tão importante, mas para um blog com foco restrito, ter um público qualificado é a meta mais importante na minha opinião.

Acredito que além da qualidade dos textos (que eu muitas vezes deixo a desejar por erros ortográficos toscos de quem escreve com pressa), é importante manter alguma regularidade. Nunca me impus um ritmo para escrever. Acredito que um texto por semana seja suficiente para que os leitores voltem com alguma regularidade. Na verdade tenho zilhões de idéias sobre coisas que eu gostaria de escrever. Me falta tempo para escrever, algumas vezes falta inspiração e em outras falta estudo mesmo. Acho que quanto melhor você escreve e mais relevantes os seus assuntos, mais leitores qualificados você ganha. Ultimamente tenho recebido alguns comentários inteligentes de pessoas que eu admiro. Estes valem por centenas de cometários medíocres e me fazem pensar que estou no caminho certo.

  • Privacidade

Gosto de escrever sobre assuntos nerds e viajar um pouco na maionese de vez em quando. Para isso criei a sessão “Delírios, Viagens e Alucinações“. É uma sessão onde gosto de escrever e tento me cuidar para não forçar a barra. Tenho o hábito de ser muito radical na hora de me expressar, de carregar na cores para enfatizar um ponto de vista. Isso pode trazer um pouco de problemas, pois como no Orkut, o lazer e o trabalho começam a se confundir e sua vida pessoal pode lhe trazer problemas profissionais. Por outro lado, fazer um blog completamente anônimo é ruim a não ser que isto seja proposital - já tive a idéia de criar o blog “Free as a Troll” mas desisti. Acho que um blog precisa ter personalidade e deixar transparecer as opiniões do autor. Por mais que você escreva sobre assuntos técnicos na maior parte do tempo, você não é uma máquina. Acredito que buscar a sua individualidade e saber expressar é uma arte. Ainda não aprendi, acho que as vezes sou muito comedido quando eu poderia ousar mais, como quando fui cobrado de colocar uma aba “Sobre” por aqui. Vou lhe dizer que enrolei muito tempo para escrever este texto e demorei a me convencer de sua importância. Por outro lado eu tenho certeza de que me exponho muito com opiniões fortes. Mas de toda forma, eu não tento evitar isso tanto assim, afinal eu sempre gostei de provocar meus interlocutores, seja na mesa de bar, na faculdade ou no trabalho. Não seria aqui que eu me omitiria.

  • O que eu ganho com isso?

Quando eu já tinha me formado na ETELG e ia até lá só para ajudar a fazer o jornal Estopim, uma pessoa sempre me perguntava o que eu ganhava com isso. Eu explicava longamente a minha opinião, mas ela aparentemente não se convencia e voltava a me perguntar em outro dia. Bom, eu realmente gosto disso. Gosto de escrever. Aprendo muito com isso e eu realmente sou fascinado com a idéia de escrever coisas novas. Gosto de me expressar e gosto que outras pessoas se expressem também. Eu diria que sou aficionado pelo debate saudável, onde você confronta idéias e ganha mais elementos para tirar as suas próprias conclusões. Este espírito me levou a escrever um texto na época do Estopim que não chegou a ser publicado e se chama “A Formação do Senso Crítico na Sociedade Atual“. Lendo este texto escrito há mais de 10 anos, vejo um marco de uma época em que eu estava muito preocupado com a importância do debate. Não é a toa que uma das coisas que eu mais gosto de fazer na vida é tomar cerveja com os amigos e debater um assunto polêmico qualquer. Pessoas inteligentes e polêmicas são excelentes companheiros de copo, mesmo que eles só tomem suco de laranja.

Mas é claro que o blog também é uma forma de autopromoção profissional. Nunca neguei isso. Mas também nunca ganhei dinheiro com isso, muito pelo contrário. Um blog pode ajudar no seu networking, embora conhecer pessoas presencialmente em eventos e tomar cerveja com elas seja infinitamente mais interessante e efetivo. As únicas pessoas que me procuraram a partir deste blog para solicitar meus serviços de consultor DBA não tinham dinheiro nem para me pagar a condução. De fato os gestores de TI de grandes empresas não devem acompanhar muito o meu blog. Mas de qualquer forma, ele é uma referência quando você se depara com uma entrevista. É corriqueiro as pessoas vasculharem seu perfil no Orkut antes de te contratarem, mas colocar o seu nome no Google também. E o SAVEPOINT está … podendo ajudar ou não como uma referência para a pessoa que está interessada em contratar meus serviços. Já pensei em colocar uma aba promovendo a minha empresa de consultoria. Cheguei a escrever um rascunho e acabei descartando. Tem gente que chega a colocar o próprio currículo no blog. Nada contra, mas por enquanto eu vou continuar assim mesmo.

Mas há uma última coisa que eu ganho ao escrever aqui e que realmente tem haver com o nome deste blog. Eu aprendo e me revejo escrevendo. Ao escrever eu me obrigo a organizar as minhas idéias e tentos expressar isso de maneira mais ou menos acabada. Ocorre que são apenas conclusões provisórias, sujeitas a alterações a qualquer momento. Um bom exemplo disto foi quando eu escrevi sobre “Autenticação de Usuários em Bancos de Dados“. Eu me arrisquei um pouco mais e divulguei este texto na lista do Oracle-BR. O Chiappa, que é um DBA que eu respeito muito pelo conhecimento e pela sua participação nesta lista, me deu uma resposta completamente contraria a minha opinião. Isto me obrigou a rever um pouco a minha opinião. O resultado é que estou lento TODA a documentação da Oracle sobre o assunto (que são uns 5 livros no total). Quanto eu terminar e me sentir mais seguro sobre o assunto, eu devo publicar um novo texto, mais maduro sobre o assunto. Certamente eu irei divulgar novamente o texto da lista do Oracle-BR e ver qual será a nova reação do colega Chiappa. Mas de qualquer forma o importante é que eu me permitir errar. E eu vejo que errei em algumas colocações minhas, o que me permitiu melhorar muito neste assunto. Isto significa que o meu blog está contribuindo diretamente para a melhoria do meu conhecimento profissional. Vale a pena ver as respostas na lista. O assunto é realmente polêmico e estes assuntos que me motivam a querer aprender mais e ser um profissional melhor qualificado.

Olhando por aí, a questão não é o que eu aprendi com o meu blog, e sim o que eu estou aprendendo! Tenho realmente muito o que agradecer aos meus leitores colegas.

Um grande abraço para quem teve paciência de ler até aqui. Nos encontramos num bar para um animado debate regado a boa cerveja qualquer dia desses! Ah, já ia me esquecendo…. e se alguém estiver afim de dar continuidade a este meme, esteja a vontade.

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Em 1993 eu e mais alguns amigos que se auto-entitulavam os “hilanders” fizemos uma viajem que ficou para a história (as fotos estão esperando para serem digitalizadas faz um tempo…). Quando voltamos para a ETELG a fama dos lugares onde fomos ganhou vulto e algumas pessoas resolveram visitar os mesmos lugares. Recebemos notícia de que o lugar tinha mudado, tinham construído hotéis por lá quando antes só haviam campings. Descobrimos que antes nem camping havia por lá! Quem ia acampava selvagem mesmo. Por isso nunca mais voltei para lá. Para guardar a imagem que tinha de lá na época.

Hoje, fui há um desses lugares mágicos que eu não visitava há muito tempo. Não me lembro ao certo quando foi a última vez que pisei por lá, fazem bem uns 7 ou 8 anos. Quando entrei, ninguém me pediu crachá… bom sinal! Logo vi a falta que o esqueleto faz na paisagem… agora só tem mato por lá.

Entrando um pouco mais vejo as paredes pintadas e a grama aparada. O talude deu lugar a uns predinhos, o bloco 2 tem uma mini-fatec instalada agora. O DAL ou SOE onde a Ângela ficava agora está no bloco 3, junto ao clube de xadrez que sobrevive depois de ter sido quase esquecido. O refeitório não existe mais, mas a lanchonete continua lá. As quadras externas também estão lá. Fui procurar alguém para me ajudar na divulgação de um evento, o II Fórum Regional de Software Livre que estou ajudando a organizar. Não me deixaram entrar nas salas e a coordenadora do curso de PD não quis falar comigo. Como fui de manhã, descobri que o curso técnico só rola de tarde e não tinha nenhum professor de áreas técnicas.

Vi coisas que me deixaram mais tranquilos, o pessoal continua ficando sem aula, a galera fazendo tumulto do saguão do bloco 2, cabeludos tocando Raul Seixas no violão, etc. Mas ainda dá a sensação que é uma moçada muito novinha, que usa uniforme e não deita no gramadão num dia de sol como hoje! Um pouco estranho. A sala do grémio foi obviamente ocupada por alguma outra coisa, a biblioteca ocupa hoje o local onde era a sala de desenho técnico com aquelas pranchetas enormes. O laboratório de pneumática também já era…

Sinceramente, me sinto velho. Como nossos pais… é como aqueles que diziam na década de 60 que rock não era música… e hoje eu digo que o que tocam no rádio não é música… na ETELG é igual. Quando entrei, os que já tinham se formado diziam que no tempo deles é que era bom! Hoje vejo o estado atual e penso a mesma coisa. Mas tem algumas diferenças e quem foi do Grêmio como eu sabe disso. Já brigávamos naquela época.

E apesar de gostar na época de rock do anos 60 e 70, não prefiro a educação dos anos 70. Não tenho saudades da ditadura militar… Criaram o mito de que a década de 80 foi a década perdida, mas não sei se foi bem assim. A democracia avançou, a educação foi universalizada, os movimentos sociais cresceram e os militantes de esquerda lotavam as praças e avenidas! Tempos de glória, isso sim. A década de 90 sim… foi horrível, com o avanço escancarado do liberalismo.

Quem estava no grémio certamente se lembra de todo o jogo do governo federal e estadual no desmantelo das estocas técnicas estaduais. E deu no que deu. Nunca esqueço da capa do Estopim que o Etson desenhou, com a entrada da ETELG com uma placa “for sale”. E ninguém entendeu…

Houveram os que disseram que o grémio foi uma aventura que não deu frutos. E eu vi depois pessoas como a Lilica, Tatu, Denis, Uiran, Akira, Guedes entre tantos outros, brilhando em vários lugares por aí. Erramos muito no Grêmio, eu errei demais. Errei também no Estopim, criei brigas desnecessárias, desperdicei talentos. Quando os últimos discipulos da turma que fundou o Grêmio saíram, o grémio sucumbiu. Mas o aprendizado foi realmente fantástico, não foi?

Pra mim, a minha faculdade foi a ETELG, lá aprendi a brigar pelo que acredito, lá comecei a beber e fumar, deixei o cabelo crescer, aprendi a tocar violão (muuuito mal por sinal), lá comecei a namorar e encontrei a primeira grande paixão da minha vida. Como o Raveli dizia, entramos cheirando talco de bebê e saímos como homens preparados para enfrentar o mundo!!!

A ETELG marcou nossos corações. O Akira criou um site que fez muito sucesso com os contatos de ex-alunos. Hoje tem vários sites da ETELG e momentos inesquecíveis marcam a sua história. Lembro de alguns:
- O jornal pirata que era a coisa mais escrachada e divertida que fizeram por lá!
- A Oktoberete que deixou a ETELG inteira de fogo, e tem quem tenha ainda sua caneca guardada.
- As corridas de carrinho de rolemã, antes de colocarem as lombadas…
- A guerra entre ETELG e SENAI que deixou vidros quebrados por vários anos e começou com uma briga entre Mecância e Eletrônica
- O dia em que os professores de Eletrônica fizeram cordão na frente do bloco 5 e caíram na porrada com a Mecânica numa das famosas finais de campão!
- A guerra de água no último dia de VAs promovida pela galera do último ano.
- O 13 de maio em que a direção trouxe um ônibus lotado de policiais para “garantir a paz”.
- Os porres no terrinha e no bloco 7 (que tem uma respeitável lista de discução no yahoo)
- As reuniões secretas da comissão pró-grémio quando 2 armários apareceram arrombados (depois descobrimos que foi só uma brincadeira do povo mesmo)
- As passeatas em 92 quando a gente lotou o paço municipal e o CP subiu no palanque!

Estas foram apenas algumas histórias… os melhores amigos também nasceram por lá! O Denis é meu padrinho de casamento, o Tatu é padrinho do meu filho, a Tati ficou com o buquê do meu casamento… e as coisas não param por aí. Depois de tanto tempo vim morar justo em SBC… o Prof. Marcão teve sua filha estudando na mesma escola que meu filho. E ainda participamos juntos da APM da escola… resultado: marcão ficou um ano e foi embora e depois de que fiquei 2 anos a diretora e a vice foram convidadas a se retirar! Será que alguém conseguiu finalmente mudar a APM da ETELG?

No final deixei a ETELG para trás. Não tenho planos de voltar por lá tão cedo. Não consegui divulgar bem o evento, mas descobri que já tinha um cartaz num mural… e tinham desenhado uma touquinha no pinguim do cartaz! Fiquei feliz com isso, acho que vou tomar umas cervas para comemorar. Quem sabe não volto a frequentar a lista do Bloco 7? Saudades do povo, André com baby a vista, Uiran e Xuxa viraram professores universitários, Akira continua escrevendo suas histórias de RPG e eu continuo dando murro em ponta de faca, acreditando que podemos fazer alguma coisa de boa no mundo, como fizemos, no tempo que estudamos na ETELG.

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Este texto foi escrito em 1996 para a última edição publicada do jornal “Estopim”. O Estopim era um jornal feito na ETE “Lauro Gomes” escola técnica em São Bernardo do Campo, onde estudei de 1990 a 1994.

1992 foi um ano que, com certeza, mar­cou a história de nosso país e da ETELG. A partir de maio, escândalos do governo Collor enchiam pá­ginas e páginas de jornais e revis­tas, ocupavam lugar de destaque nos telejor­nais do Brasil e do exterior, reascendendo uma chama há muito tempo apagada: o movimento estudantil.
Os estudantes, posteriormente chama­dos de “caras-pintadas”, tomaram as ruas de todo o país, inundando-as de milhões de estu­dantes pe­dindo a saída do então presidente. Em São Ber­nardo, não foi e nem podia ser dife­rente e, com certeza os estudantes da ETELG ocuparam um lugar de desta­que partici­pando de vários atos pú-blicos no ABC e em São Paulo, pe­dindo ética na política.
Foi no auge desta movimentação que um grupo de eteanos, bi­chos e vetera­nos, inici­aram a concretização de um antigo projeto: a cria­ção de uma en­tidade na ETE que lutasse pelos direitos dos estudantes , por melhorias na escola e também esclarecesse os alunos so­bre seus deveres.
A princípio, as reuniões eram feitas meio que às escondidas nos blocos 2 e 3 e no “bloco 7”, devido ao fato de que vários outros alunos já ha­verem tentado criar um grêmio em anos anteriores chegando mesmo a serem ameaça­dos de expulsão. A 1a tentativa de se formar uma Comissão Pró-grêmio foi boicotada pela direção até a convoca­ção da 1a reunião oficial em outubro de 1992. A partir deste momento, seguiram-se inúmeras reuni­ões, assembléias, discussões e também confusões e brigas; foi realizado um plebiscito para que os alunos aprovassem o estatuto do grêmio, até que no dia 28 de novembro de 1992 foi oficialmente fundado o Grêmio Estudantil “Édson Luís”, numa assembléia que também instituiu uma di­retoria provisória até a realização da 1a elei­ção.
Quando todos pensavam que a parte mais difícil do trabalho havia terminado, desco­briram que agora é que ela viria. O grêmio tinha um nome, um estatuto, uma diretoria eleita pe­los alu­nos, mas não tinha uma sede apesar do tamanho da escola e do número de salas de­socupadas. Após inúmeros pedidos feitos em vão, decidiram que seria montada uma barraca na praça do bloco central que funcionaria como sede; alguns dias após esta decisão, os gre­mis­tas foram infor­mados pelo então diretor Pedro Ravelli que a sala 300 - antiga sede da Cooperete - se­ria cedida ao Grêmio, o que acabou não acontecendo.
Em 1993 o Grêmio reali­zou sua 1a ativi­dade apre­sen­tando a escola aos “bichos”. Neste ano tam­bém ocorreria a 1a eleição para a direto­ria do Grêmio e para o conselho de re­presentantes de habilitação. Isso significava con­vocar uma Assembléia Geral para formação da Comissão eleitoral, responsável pela abertura inscrição para candidatos e cha­pas, estabele­cimento de prazos e datas de cam­panha e vo­tação e con­fecção de cédulas e urnas. Infeliz­mente apenas uma chapa se inscreveu e de­vido a inexperi­ência da Comissão Eleitoral a elei­ção foi frau­dada. Resultado: todo processo elei­toral teve que se repetir em um curto es­paço de tempo. Além disso naufragava a 1a tentativa de se fa­zer e veicular um jornal do Grêmio: O ESTO­PIM. Apesar de todas estas di­ficuldades inclu­indo a de não possuir uma sede, o Grêmio ainda conseguiu realizar uma sessão de vídeo no anfiteatro apresentando o filme “The Doors”, um debate sobre presiden­cialismo, parlamentarismo, repú­blica e monar­quia e a partir deste ano, o grêmio passou a for­necer a “Carteirinha da UBES”, que garante ao estu­dante o pagamento da ½ entrada em shows, cinemas e teatros.
1994, ano de eleição para diretor. O di­re­tor e candidato a reeleição para o cargo, Pedro Ravelli, agora cede ao grêmio uma mi­núscula sala no bloco central - a sala 10.1. A conquista da sede facilitou e agilizou o trabalho do grêmio, que no decorrer do ano mobilizou a escola diversas vezes levando a comunidade eteana a participar de discussões e atos por melhorias do ensino, melho­res salários para os professores e diversas outras campanhas.
Após ter seu plano bienal - plano de tra­balho do diretor para os 2 anos subsequentes - re­jeitado pelo CEETEPS, por ser considerado insufici­ente, o então diretor organizou um abaixo assi­nado pedindo uma reavaliação de seu plano, afirmando que havia sido elaborado por toda comunidade e convocou representan­tes do grêmio para que estes assinassem em nome dos estudantes da escola. Diante de tal “pedido”, os representantes solicitaram tempo para consultar a diretoria da entidade, que unanimemente recusou tal proposta uma vez que o plano não havia sido discutido com os alunos, tão pouco elaborado coletivamente. Quando in­formado de tal decisão, o diretor mu­dou comple­tamente sua política em relação ao grêmio, inici­ando uma perseguição aos seus membros, che­gando mesmo a afirmar em tom de ameaça: “EU DESTRUO VOCÊS” - frase que consta nos autos da sindicância instituída para investigar a ad­ministração do diretor. Neste ano, o grêmio sentiu-se obrigado a fazer campanha pela abstenção do voto para diretor.
Após essa série de acontecimentos, na véspera da realização da eleição, os alunos Uiram Kopcak e Ricardo Guedes, juntamente com re­presentantes de pais e professores, se dirigiram à então Coordenadora do ensino téc­nico do CEE­TEPS, Marisa Fumanti Chamon, colocando-a a par dos fatos ocorridos na ETELG. Imedia­tamente ela os encaminhou ao Diretor Superin­tendente, Elias Horani, que ou­viu atentamente toda a história. Na mesma noite, foi enviado à es­cola documento cance­lando a eleição. Contrari­ando a decisão do CEETEPS a votação foi inici­ada e até a sua in­terrupção, feita em ocasião da chegada da prof. Marisa, apenas 2 alunos ha­viam votado, confirmando assim o sucesso da campanha feita pelo grêmio. Neste ano ainda, o grêmio organizou debate entre candidatos à depu­tado e realizou a 1a Festa Junina da ETELG.
1995, depois de um certo atraso para a realização da eleição da nova diretoria do Grê­mio, finalmente foi instituída uma Comissão Elei­toral, que cuidou da inscrição das chapas e da orga­nização do pleito. No 2o dia de vota­ção, alguns alunos de MC violaram a urna, anu­lando, assim, a elei­ção e atrasando a troca de diretoria. Finalmente, conseguiu-se concluir o processo, onde apenas uma chapa se inscre­veu.
Em virtude da ameaça de privatização das ETE’s, o Grêmio organizou as­sembléias com toda a comunidade eteana, trouxe os de­putados Clóvis Volpi e Prof. Luizinho e a presi­dente do Sindicato dos Trabalhadores do CEE­TEPS, Celeste para um debate sobre o mesmo tema e levou a comunidade até a Secretaria de Ciência e Tecnologia e ao CEE­TEPS para pro­testar contra isso. Realizou também a Festa Agostina (uma 2a versão da Festa Junina), or­ganizou campeonato de Fu­tsal, de tênis de mesa e o 1o Campeonato de Truco da ETELG. Além disso o grêmio estendeu seu trabalho de distribuição da carteirinha da UBES para di­ver­sas escolas do ABCD.
Nova eleição para diretor na ETE e o Grêmio mais uma vez encabeça a campanha de abs­tenção devido a irregularidade no pro­cesso eleitoral e a infeliz data da realização da votação, que se encontrava no meio da se­mana de V.A. Mais uma vez o Grêmio atinge seus objetivos e a elei­ção é anulada por falta de quorum no segmento correspondente aos alunos. Pela 1a vez em toda a sua história, o Grêmio agiu como fator determi­nante na altera­ção da história da ETELG. A atitude do Grêmio foi endossada por professores, funcionários, membros da direção e do CEETEPS.
Após este fato o grêmio foi, pela 1a vez convidado a participar de uma reunião de elei­ção da diretoria da APM, onde devido a sua atuação decisiva, conquistou o direito de eleger um aluno representante na mesma e um fiscal-obser­vador.
Caminhando para o 4o ano de sua exis­tência, o Grêmio carrega consigo, várias con­quis­tas que necessitam ser conservadas, apri­moradas e discutidas com a participação ampla de todos. Tudo o que já foi feito, todas as difi­culdades su­peradas até hoje podem ser pou­cas se comparadas às reservadas ao futuro do grêmio. Existem proje­tos, propostas, festas, campeonatos, jornais e clu­bes que podem ser viabilizados via grêmio. Se levado a sério o Grêmio Estudantil “Édson Luís” tem condições de se expandir e repre­sentar o grande poten­cial dos alunos da ETELG. Alunos com idéias diversas e inovadoras, alunos com capacidade de fazer valer suas vontades. Porém, para que se consiga atingir estes ideais, muitas dificul­dades e barreiras precisam ser ven­cidas, bar­reiras que só serão deixadas para trás se o grêmio contar com a participação efetiva dos seus membros: os alunos.

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